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A Difícil Notícia
Koala Hospital Animal
A morte de um animal de estimação é um acontecimento doloroso para toda família. Os pais, além da própria dor, se vêem diante do problema de como lidar com os filhos nesta situação. Não são poucas as perguntas e dúvidas ao veterinário sobre como agir ou os pedidos de explicações irreais quando estiverem na frente dos filhos. Este texto não tem a ambiciosa intenção de ser um guia de comportamento, mas sim, auxiliar aqueles que muitas vezes, pela primeira vez, enfrentam a dura missão de comunicar aos filhos a morte de um animal ou mesmo uma decisão de eutanásia.
A seguir, vamos discorrer sobre os diversos fatores que influenciam a reação de uma criança ou adolescente diante da morte de um animal de estimação:
1) Relação entre o animal e a criança - o significado do animal
Os animais de companhia desempenham um papel importante e saudável no desenvolvimento emocional das crianças. Estudos mostram o efeito benéfico em relação ao estresse familiar, sendo que a posse de um animal beneficia tanto pais quanto filhos, além do fato de representar um interesse familiar comum.
Os animais podem dar o estímulo de engatinhar e andar aos bebês e às crianças na primeira infância. À medida que a criança explora seu ambiente, os animais proporcionam companhia e proteção. Às vezes, crianças muito ativas podem maltratar os animais, e estes podem revidar, de modo que a convivência entre eles deve ser observada pelos pais que devem intervir se necessário.
Os animais podem auxiliar no relacionamento com outras crianças, sendo particularmente benéfico com crianças tímidas porque os animais atraem outras crianças rompendo a barreira da comunicação.
Um mascote grande e belo confere prestígio à criança aumentando sua auto-estima.
Enquanto a criança cresce, ela nota que nem sempre recebe a aprovação dos pais. Por outro lado,
o animal se manterá fiel como o amigo que pode ser abraçado e que não o julga, e além disso,o ama incondicionalmente.
Eles também proporcionam um consolo confiável quando os pais se ausentam por qualquer período.
Na adolescência, começam a ir em busca de amor, aprovação e amizade. Os conflitos familiares se originam em sentimentos ambíguos do desejo de se separar e estar junto dos pais. Os animais podem facilitar esta fase proporcionando aos jovens segurança, consistência e senso de responsabilidade. Também oferecem ao adolescente a possibilidade de abraçar sem ser considerado infantil.
Quando os laços entre eles se cortam, as crianças experimentam uma profunda dor emocional. Muitas vezes a morte do animal é a primeira experiência da perda, e este aprendizado é um acontecimento crucial no desenvolvimento humano.
É essencial conhecer os diversos níveis de compreensão da morte pelas crianças a fim de ajudá-las de maneira apropriada.
A consciência da morte é modelada pelo desenvolvimento emocional da criança, sua personalidade e suas experiências. Existem etapas definidas de consciência da morte que frequentemente correspondem
à idade cronológica.
2) O grau de entendimento da criança sobre a morte
· Entre o nascimento e os 5 anos de idade
Nesta fase, a morte significa primeiramente separação. A maior parte das crianças tem dificuldade para compreendê-la e ela não é considerada como um estado permanente, sendo vista como uma situação transitória semelhante ao sono. Para as crianças desta faixa etária, uma pessoa ou animal mortos seguramente voltarão, especialmente se forem considerados bons. Esse conceito é análogo à visão de personagens de estórias que explodem em mil pedaços para retornar intactos na cena seguinte. As crianças crêem que aqueles que morreram continuarão correndo, crescendo e dormindo na morte. Também pensam que a morte é mais acidental do que inevitável, e que podemos driblá-la se formos precavidos. Elas sabem que a morte é desagradável, mas não entendem muito bem o que é.
A morte provavelmente não abalará tanto a criança que tem suprida suas necessidades físicas e emocionais primárias. Se por outro lado a criança se apóia no animal para lhe proporcionar bem estar, segurança, estabilidade física e emocional, a dor da perda será mais profunda.
É importante tomar cuidado com os termos utilizados, pois a criança nesta fase iguala a morte a um sono, portanto deve-se evitar frases como "pôr para dormir", na hipótese da eutanásia. "Ajudar a morrer" ou "facilitar a morte" são expressões mais precisas e que darão alívio.
· Entre 5 e 9 anos
A criança já compreende que a morte é o final, e este é um passo importante do desenvolvimento. Durante este período de idade, as crianças designam qualidades humanas à morte, personificando-a e fazendo associações com personagens como Drácula, Jack Estripador e Frankenstein. Nesta faixa etária, elas crêem que a morte pode ser evitada se você for inteligente ou afortunado.
Aos 9 anos, quase todas as crianças compreendem que a morte é o final inevitável e universal. Esta é a concepção adulta da morte. A criança toma consciência de que a mortalidade existe para todos os seres vivos incluindo a si mesmo e seus entes queridos. Esta tomada de consciência é muitas vezes acompanhada por um interesse no conceito de uma existência após a morte.
3) Morte previsível ou repentina
Se a morte de um animal é previsível, ela deve ser abertamente discutida na família. As crianças pequenas demais para compreender o que a morte realmente significa, ficarão muito impressionadas se a morte iminente do mascote for rodeada de murmúrios. Se a morte for esperada, como numa enfermidade crônica, a criança deve ser advertida. Nesse caso, é importante diferenciar entre o tipo de enfermidade da qual padece o animal e as doenças normais das quais a criança e seus pais se recuperarão. Se esta diferença não for esclarecida, as crianças muito pequenas podem se assustar com seus pequenos males e de seus entes queridos. Elas devem ser convencidas de que a morte do animal era inevitável porque ele estava muito doente, mas que seus pais continuarão ao seu lado.
Se a eutanásia for considerada e as crianças forem suficientemente maduras para participar da decisão, elas devem ser incluídas em qualquer discussão sobre o tema. Isto é particularmente indispensável nos adolescentes que podem se sentir mais desorientados com a situação. Como as crianças menores de 6 anos tendem a conceituar a morte de maneira inexata, quando um animal morre é importante proporcionar apoio emocional mais do que uma explicação detalhada. Depois dos 7 anos, as crianças podem receber mais informações sobre a morte. Quando as crianças pequenas perdem seus animais em acidentes, as imagens desagradáveis e mórbidas devem ser evitadas para ajudar a prevenir pesadelos. Se a criança presenciou o acidente, deve ser estimulada a falar sobre o mesmo. As explicações sobre como e porque morreu o mascote sempre devem ser dadas em linguagem clara e direta.
4) Como comunicar a morte e dar apoio emocional
Algumas vezes, apesar de boas intenções, os pais criam um trauma psicológico inadvertidamente. Dizer a uma criança que seu animal fugiu em lugar de falar da morte faz com que o jovem se sinta rejeitado e abandonado por ele. Dizer que ele foi viver com outra família pode ter as mesmas conseqüências. As explicações religiosas do tipo "foi ao paraíso porque Deus quer as criaturas boas lá" , pode provocar a ira contra Deus e criar um mau comportamento porque a criança não deseja ser tirada de sua família por ser boa. É importante que os pais digam aos filhos que a tristeza e a dor são normais e necessárias para curar a ferida causada pela morte. As crianças devem ser estimuladas a compartilhar seus sentimentos mesmo que pareçam irracionais. Também é normal que elas sintam raiva de seus pais e do veterinário por não salvarem seu animal. A raiva das crianças deve ser aceita e manejada com doçura explicando-lhes que há certas coisas na vida que os adultos não podem modificar. Nunca se deve dizer às crianças que elas são "muito grandes para chorar", e seus sentimentos nunca devem ser deixados de lado. As crianças às vezes têm pensamentos mágicos e podem se culpar pela morte do animal. Os pais devem se preparar para responder várias vezes a mesma pergunta enquanto a criança estiver assimilando a perda.
Se os pais também estão tristes com a morte do animal, eles devem compartilhar esse sentimento com o filho. Ocultar o sentimento de dor não protege a criança, mas a faz sentir exilada e estranha acerca de suas próprias reações. Além disso, se sente confusa e assustada quando percebe que um adulto está imerso em fortes emoções, mas ao mesmo tempo as nega. Os adultos devem cumprir seu papel como modelos que podem sofrer, expressar e suportar sentimentos dolorosos até que se extingam.
As crianças que desejam assistir a eutanásia de seu animal e que são suficientemente maduras para entender o que ocorre sem se abalar emocionalmente, podem ser autorizadas a participar deste procedimento. Uma criança que não deseja estar presente, ou não cumpre os critérios para sua participação, pode ser autorizada a ver o animal depois de morto. Isto permite o adeus final, previne fantasias acerca da situação em que se encontra o animal e mostra à criança que a morte também pode
ser tranqüila e reconfortante.
QUANDO ADQUIRIR OUTRO ANIMAL?
É necessário levar em consideração alguns detalhes antes de adquirir outro mascote. A menos que a criança implore ou sofra realmente para ter um outro animal, deve-se protelar a aquisição de um novo. Muitos pais desejam substituir os mascotes rapidamente com a intenção de suavizar a dor normal da criança.
A substituição rápida pode inibir uma relação saudável e fazer com que a criança rejeite o novo amigo para evitar o que ele sente, como uma traição ao mascote anterior. A criança também pode acreditar na idéia irreal e no temor de que tudo pode ser substituído, inclusive ela mesma. Não há regras para decidir quando adquirir um novo animal, mas as questões seguintes podem ajudar a avaliar se o momento é adequado:
· O tempo foi suficiente para a criança lidar com os seus sentimentos?
· A criança pode falar sobre o animal perdido sem experimentar uma grande dor?
· Ela pode falar da posse de um novo animal sem se sentir desleal com o anterior?
· Ela pode considerar uma nova raça de animal, outra cor da mesma raça, ou se o novo animal for parecido ao anterior, poderia dar-lhe outro nome?
Além da discussão anterior, os pais podem incentivar atividades familiares como olhar fotografias e objetos pertencentes ao animal e devem ser capazes de falar sobre o que gostavam e não gostavam no mascote. As crianças que têm pouca manifestação verbal podem escrever estórias ou fazer desenhos. A família também pode criar um funeral ou um serviço em memória do animal, incorporando sugestões das crianças. Vale lembrar que hoje já existem serviços de cremação e cemitérios disponíveis para animais.
Todas essas atividades fazem com que a perda seja mais aceitável, facilitam a expressão da dor e promovem o apoio familiar.
CONDUTAS INDICATIVAS DE UM COMPORTAMENTO PROBLEMÁTICO NAS CRIANÇAS
Quando recebem afeto e apoio emocional adequado, a maior parte das crianças pode suportar a morte com pouco ou nenhum trauma. Algumas crianças sofrem reações extremas diante da perda de um animal de companhia. As seguintes condutas infantis podem indicar um sofrimento problemático:
· Incapacidade de se separar dos entes queridos
· Pesadelos constantes
· Distanciamento da família e dos amigos
· Aumento do nervosismo e uma marcante diminuição da auto confiança
· "Acidentes" em crianças com bons hábitos de higiene
· Adolescentes e pré-adolescentes em mal estado somático freqüentes sem uma causa física real (tipicamente aparecem dores de cabeça e de estômago)
· Problemas de comportamento e um menor rendimento escolar
· Incapacidade para concentrar-se na aprendizagem
Quando esses sintomas aparecem imediatamente depois da morte do animal, são normais e devem ser esperados. Se esses problemas aparecem 1 mês ou mais depois do ocorrido, tanto a criança quanto a família se beneficiariam consultando um psicólogo.